Há algumas semanas, eu estava instalando uma fechadura eletrônica em casa. Nada demais: uma porta, uma fechadura, uma chave de fenda — e várias horas de trabalho não remunerado, cuidando da casa do Lucca e da Júlia. Enquanto eu estava ali, recurvado, tentando descobrir que parafuso ia onde, acontecia uma colaboração perfeita entre corpo e mente. O corpo era eu, girando a chave para a apertar o parafuso. A mente era meu parceiro inseparável nas tarefas domésticas – o ChatGPT.
Estávamos conversando como sempre fazemos. Eu mandando fotos, descrevendo o lugar, medindo a porta, a distância até o caixilho. E ele, me dizendo o que fazer. “Abaixe mais o visor”. “Não deixe a porta desalinhada”. “Alargue o furo com uma serra copo.” E lá ia eu, obedecendo às ordens do chefe, alargar o furo com uma serra copo. Fazer o trabalho braçal.
A divisão emergente do trabalho: A IA elabora; o humano opera
Essa cena doméstica ilustra o que acontece atualmente em muitas atividades. Você descreve o contexto, explica a situação, brifa o projeto. Copia e cola arquivos para uma knoledge base, organiza as imagens da identidade visual corporativa. Quando tudo está organizadinho, a IA entra para fazer o trabalho intelectual e criativo. Sintetiza ideias, cria layouts, cospe código, prepara roteiros de apresentações e planos estratégicos para o triênio. E nos entrega tudo para organizar. Colocar na plataforma que gerencia o orçamento, colocar no ppt para a apresentação, revisar no código da aplicação onde as bibliotecas estão sendo utilizadas. Consigo até ouvir o carro do chefe indo embora enquanto o time vira a noite deixando as coisas realmente prontas para o dia seguinte. Em muitos casos, nós, humanos, somos os operadores de Ctrl C – Ctrl V para a IA.
Não é à toa que pesquisas demonstram que os ganhos reais de produtividade gerados pela IA ainda se mostram marginais. Estudos como o de Brynjolfsson et al. (2025), em um campo real com mais de 5 mil atendentes de suporte, mostram incrementos de 14% a 15% em tarefas muito específicas, sobretudo para profissionais menos experientes. Em trabalhos de escrita, pesquisadores encontram aceleração relevante, mas sempre circunscrita ao escopo da tarefa testada. E quando ampliamos a lente para o funcionamento real das organizações, a curva se achata: pesquisas com mais de 25 mil trabalhadores em 7 mil empresas, identificam economias médias de apenas 3% do tempo de trabalho e ganhos salariais de 3% a 7%, indicando impacto modesto no agregado. Até os pilotos governamentais mais amplos — como o do Reino Unido com 20 mil servidores civis usando Copilot — relatam que a economia de tempo equivale a meras duas semanas por ano. Ou seja: a IA entrega velocidade em tarefas localizadas, mas não reorganiza magicamente a produtividade global. Se levarmos em consideração ainda o tempo investido em aprendizado e as POCs mal sucedidas de aplicação da IA nas empresas, é possível que o cômputo geral seja negativo.
O importante passo da interoperabilidade.
Isso acontece justamente porque, por enquanto, a IA pensa — e nós ainda passamos boa parte do tempo apenas colocando as coisas no lugar. E os gargalos operacionais continuam mantendo as coisas mais ou menos na mesma velocidade. Usando o paralelo recente do boom dos processos de ideação em empresas, o gargalo não estava na geração de ideias – estava na capacidade de operacionalizar a experimentação destas ideias e a transformação das bem sucedidas em negócios.
Pois bem, a IA Generativa ampliou ainda mais a capacidade de gerar ideias (boas ou más, como sempre tivemos). Acontece que este não era o gargalo. Para os familiarizados com gestão de projetos, este não era o caminho crítico. Então ganhar velocidade ali não contribui para aumentar a velocidade do processo como um todo. O grande desafio é conectar a geração da ideia com a implementação, a execução e a coleta de indicadores estratégicos e, aí sim, com a tomada de decisão.
Este passo, de interoperabilidade entre diferentes plataformas e processos, é um elo essencial para colocar a cadeia para rodar. E é no que as empresas devem investir para, de fato, colher os frutos da IA em termos de produtividade – e também para libertar duas equipes do Ctrl C – Ctrl V. Estas ainda são implementações que necessitam um estudo de arquitetura (de produto, de serviços e de sistemas) feito por especialistas nas áreas de design, de negócios e de tecnologia. Isso vai evitar muitas frustrações da equipe com os “vôos de galinha” da adoção da IA, em que a própria equipe, com boas intenções e vislumbrando tecnologias promissoras, investe um bom tempo estudando “engenharia de prompts”, criando agentes e testando várias plataformas que, no fim das contas, não entregam resultados bons o suficiente para serem usados na vida real. Estas entregas tornam-se, no máximo, bons insumos para o trabalho braçal que os humanos precisarão fazer depois.
Benefícios imediatos e futuros
Evidentemente a IA Generativa já traz, sim, grandes evoluções. O empoderamento é um exemplo. Sem meu amigo ChatGPT, talvez eu sequer me arriscasse a instalar a fechadura sozinho. E funções específicas, como acesso rápido a informações de saúde, dieta e exercícios, empoderam milhões de pessoas no mundo todo a cuidar melhor de si mesmos – e facilitam a vida de profissionais de saúde com acesso rápido à informação.
No entanto, mesmo nestes casos, seu impacto ainda é questionável. Já há muito tempo, em comunidades com bom nível de acesso à informação, o acesso à dados nutricionais dos alimentos e até mesmo a uma dieta personalizada é apenas parte do problema. O desafio, aqui, é o dia-a-dia de preparação das refeições saudáveis – ter as frutas frescas, ter tempo para preparar o suco natural ou dinheiro para ter alguém que o prepare. Quando as opções saudáveis estão disponíveis, elas entram na rotina. Quando não estão, ter uma recomendação de dieta é apenas mais um gerador de ansiedade. Mas todos estes gargalos são, também, processos que a IA ajudará a resolver. Com sistemas integrados operados por agentes conseguiremos, de fato, grandes ganhos de produtividade e de qualidade de vida.
Mas este não é um resultado inevitável da tecnologia de IA, e deve ser conscientemente perseguido pelos homo-sapiens. De outra forma, vamos ganhar velocidade em direção à nossa consolidação como apertadores de parafusos.


