Em uma época em que celebra-se a diversidade em todas as suas formas (de competências, de gênero, de opiniões, de manifestações culturais), começa a emergir de forma ultra rápida*** um padrão assustadoramente uniforme – o da forma de escrever.*
*(Nota: um dos padrões mais recorrentes nos textos de IA, até então menos utilizado por humanos, é a utilização de hífen. Para me permitir utilizá-lo fui atrás de meus textos antes da era da IA e confirmei que eu já utilizava este recurso com frequência. Então posso afirmar que, neste caso, foi a IA que me copiou.)
Por que a falta de diversidade da linguagem é uma das formas mais sinistras de uniformidade.
Quando todos escrevem (e, de maneira mais ampla, se expressam) de forma parecida não estamos falando apenas de questões de forma e estilo. É necessário compreender, antes de mais nada, que o aspecto narrativo da linguagem é apenas uma de suas formas. Os usos mais complexo da nossa capacidade de expressão têm mais a ver com elaboração de conceitos e desenvolvimento de raciocínios do que com a mera descrição de eventos e situações. E a elaboração de conceitos tem, por sua vez, estreita relação com a neuroplasticidade do nosso cérebro, e reforço de caminhos neurais que, por sua vez, conformam nossa capacidade analítica, nossos modelos mentais e nossa capacidade de criar novas conexões. Neste sentido, estudos apontam que a linguagem não determina como pensamos, mas influencia fortemente que distinções fazemos, o que percebemos com mais facilidade, o que lembramos e como organizamos ideias. Um exemplo fascinante disso é de tribos indígenas austalianas que não usam “esquerda” e “direita”, mas apenas norte, sul, leste e oeste e, como consequência, têm habilidades extraordinárias de orientação espacial. Pode parecer extremo, mas considerando-se o efeito no longo prazo de uma impressionante padronização na forma e no vocabulário, o que isso fará com nossa diversidade de ideias?
As dicotomias e a polarização.
Um exemplo simples **** é o vício de linguagem da dicotomia ***
Com tudo isso em vista não é difícil concluir o risco que corremos quando todos estão expostos a um único interlocutor onipresente (a IA), redigindo por nós e aproveitando nossas interações para universalizar seu estilo de escrita – e, por consequência, universalizar nossa forma de conceber as ideias.
Estamos falando da conformidade de ideias, do uso de
O história da diversidade e sua importância
(colocar aqui link para o artigo sobre diversidade e inovação)
Inovação e multidisciplinaridade: quando o diferente se encontra, algo novo acontece
Falar de como a manipulação descentralizada é a mais poderosa – e a mais difícil de identificar.
Quando todos querem ser diferentes, todos vestem calças jeans.
Falar do Insights de sexta em que falamos sobre o momento em que a maior parte do conteúdo das redes sociais seria criado por IA e não por humanos. E o impacto disso.
Apêndice: Se você ainda não acredita na profundidade do impacto que a linguagem pode ter na nossa forma de pensar, consulte estas pesquisas na área:
Gênero gramatical
Pesquisas mostram que o gênero gramatical influencia as associações feitas com objetos. Falantes de idiomas diferentes tendem a descrevê-los com características distintas, mesmo quando observam a mesma coisa.
Fontes: https://www.edge.org/3rd_culture/boroditsky09/boroditsky09_index.html • https://escholarship.org/uc/item/3j37f380
Cores
Idiomas categorizam as cores de maneiras diferentes. Essas diferenças alteram a velocidade e a precisão com que as pessoas identificam e lembram determinados tons.
Fontes: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/lang.12195
Orientação espacial
Algumas línguas usam apenas pontos cardeais, em vez de “esquerda” e “direita”. Seus falantes desenvolvem uma orientação espacial muito mais precisa porque treinam essa habilidade o tempo todo.
Fontes: https://www.edge.org/3rd_culture/boroditsky09/boroditsky09_index.html
Tempo
A forma como um idioma descreve o tempo influencia sua representação mental. Falantes de inglês tendem a organizá-lo horizontalmente; falantes de mandarim respondem mais naturalmente a representações verticais.
Fontes: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/lang.12195
Memória
Idiomas que exigem identificar o responsável por uma ação fazem seus falantes lembrar melhor quem fez o quê. A gramática direciona a atenção e influencia o que fica registrado na memória.
Fontes: https://www.edge.org/3rd_culture/boroditsky09/boroditsky09_index.html • https://www.annualreviews.org/doi/10.1146/annurev.anthro.26.1.291
outros fabulosos exemplos de como a linguagem elabora
Uma pessoa fala “delve” numa palestra acadêmica no YouTube. Outra usa “boast” num podcast de tecnologia. Isoladamente, é só vocabulário. Em escala — em centenas de milhares de horas de fala espontânea — é evidência de algo que ninguém pediu para acontecer: a inteligência artificial está mudando a forma como os humanos falam, sem que percebam.
O que a pesquisa encontrou
Pesquisadores do Max Planck Institute for Human Development, na Alemanha, analisaram mais de 740 mil horas de palestras acadêmicas e episódios de podcast transcritos no YouTube, de antes e depois do lançamento do ChatGPT. Eles identificaram um conjunto de palavras que o modelo prefere usar ao editar texto — termos como delve, boast, meticulous e swift, apelidados de “palavras GPT” — e rastrearam a frequência delas na fala espontânea ao longo do tempo.
O resultado: um salto mensurável e abrupto no uso dessas palavras depois do ChatGPT, mesmo em contexto de fala não roteirizada, onde ninguém está lendo um texto gerado por IA. Uma pesquisa irmã, conduzida na Florida State University, chegou a um padrão parecido analisando podcasts de ciência e tecnologia: quase três quartos das palavras associadas à IA aumentaram de uso, algumas mais do que dobrando de frequência — enquanto seus sinônimos comuns ficaram estáveis.
As pessoas não estão citando a IA. Estão incorporando o vocabulário dela como se fosse próprio, sem perceber.
Por que isso importa além do vocabulário
A tentação é tratar isso como curiosidade linguística — mais uma “palavra da moda” entrando no léxico coletivo, como aconteceu com jargões de internet ou de negócios em outras épocas. Há uma diferença estrutural importante: dessa vez, a fonte não é um grupo social, um evento cultural ou uma comunidade — é um único modelo, treinado numa distribuição estatística específica de linguagem, conversando simultaneamente com centenas de milhões de pessoas.
Linguagem não é só um veículo neutro para o pensamento — ela molda o próprio pensamento. Se o vocabulário de milhões de pessoas está convergindo para a média de um modelo, é razoável esperar que a saída criativa dessas pessoas — ideias, soluções, produtos — converja na mesma direção.
O que isso significa para quem cria
Para um Innovation Studio, esse dado funciona como um alerta direto sobre o próprio processo de trabalho. A criatividade estruturada — a que sustenta um bom PoC Design — depende de pensamento divergente: gerar o máximo de soluções possíveis antes de convergir, questionar até a ideia favorita, resistir à primeira resposta “óbvia”. Uma ferramenta de IA usada sem critério nessas etapas tende a empurrar todo mundo para a mesma resposta média — exatamente o oposto do que a etapa de Ideação exige.
Isso não é argumento contra usar IA. É argumento para usá-la com intenção: como ponto de partida a ser desafiado, não como resposta a ser aceita. Preservar o pensamento divergente dos times e dos clientes deixou de ser só um valor cultural — virou responsabilidade prática de quem lida com inovação todos os dias.
A pergunta que fica
Se a IA já está mudando como as pessoas falam sem que elas percebam, a pergunta que interessa a qualquer time de inovação não é se ela vai influenciar como pensam — é se alguém está prestando atenção nisso enquanto acontece.


