O que 740 mil horas de fala espontânea revelam sobre a IA, nosso jeito de pensar e os riscos para a inovação

Acadêmicos adotaram o jeito de falar da IA mesmo em conteúdos de autoria própria. O que a inteligência artificial colocando palavras na nossa boca significa para a criatividade?

Em uma época em que celebra-se a diversidade em todas as suas formas (de competências, de gênero, de opiniões, de manifestações culturais), começa a emergir de forma acelerada um padrão assustadoramente uniforme – o da forma de escrever.*

*(Fun fact: um dos padrões mais recorrentes nos textos de IA, até então menos utilizado por humanos, é a utilização de hífen. Para me permitir utilizá-lo fui atrás de meus textos antes da era da IA e confirmei que eu já utilizava este recurso com frequência. Então posso afirmar que, neste caso, foi a IA que me copiou. 🙂

Pesquisadores do Max Planck Institute for Human Development, na Alemanha, analisaram mais de 740 mil horas de palestras acadêmicas e episódios de podcast transcritos no YouTube, de antes e depois do lançamento do ChatGPT. Eles identificaram um conjunto de palavras que o modelo prefere usar ao editar texto — termos como delve, boast, meticulous e swift, apelidados de “palavras GPT” — e rastrearam a frequência delas na fala espontânea ao longo do tempo. O resultado foi um salto mensurável e abrupto no uso dessas palavras depois do ChatGPT, mesmo em contexto de fala não roteirizada, onde ninguém está lendo um texto gerado por IA. Uma pesquisa irmã, conduzida na Florida State University, chegou a um padrão parecido analisando podcasts de ciência e tecnologia: quase três quartos das palavras associadas à IA aumentaram de uso, algumas mais do que dobrando de frequência, enquanto seus sinônimos comuns ficaram estáveis.

O fato é que as pessoas não estão apenas citando a IA. Estão incorporando o vocabulário dela como se fosse próprio, sem perceber. E gerando mais conteúdos com base neste mesmo vocabulário que, adivinhe, a IA usa para se treinar. Você consegue imaginar o impacto disso no longo prazo?

Homogeneização da linguagem: uma ameaça silenciosa à diversidade de pensamento

Diversidade de pensamento
A diversidade de perspectivas é o que sustenta a inovação

Já abordamos aqui no Insights da Action Labs dos benefícios de um ambiente diverso para a inovação, no artigo sobre Inovação e Multidisciplinaridade. Mas aqui estamos falando de algo ainda mais profundo do que a influência na capacidade de inovação corporativa. Quando todos escrevem (e, de maneira mais ampla, se expressam) de forma parecida não estamos falando apenas de questões de forma e estilo. É necessário compreender, antes de mais nada, que o aspecto narrativo da linguagem é apenas uma de suas formas. Os usos mais complexos da nossa capacidade de expressão têm mais a ver com elaboração de conceitos e desenvolvimento de raciocínios do que com a mera descrição de eventos e situações. E a elaboração de conceitos tem, por sua vez, estreita relação com a neuroplasticidade do nosso cérebro, e reforço de caminhos neurais que, como consequência, conformam nossa habilidade analítica, nossos modelos mentais e nossa capacidade de criar novas conexões. Neste sentido, estudos apontam que a linguagem não determina como pensamos, mas influencia fortemente que distinções fazemos, o que percebemos com mais facilidade, o que lembramos e como organizamos ideias. Um exemplo fascinante disso é de tribos indígenas australianas que não usam “esquerda” e “direita”, mas apenas norte, sul, leste e oeste e, como consequência, têm habilidades extraordinárias de orientação espacial. Pode parecer extremo, mas considerando-se o efeito no longo prazo de uma impressionante padronização na forma e no vocabulário, o que isso fará com nossa diversidade de visões de mundo?

Como a IA reforça dicotomias e alimenta a polarização. 

Um dos exemplos linguísticos mais evidentes é o paralelo entre a polarização das opiniões e um dos principais vícios de linguagem das IAs: a dicotomia. A dicotomia é uma figura de linguagem que divide o universo possível em dois lados. Vivo x Morto. Verdadeiro x Falso. Certo x Errado. Uma verdadeira dicotomia não permite espaço para uma terceira opção. Mas as dicotomias verdadeiras são realmente muito raras e conceituais. O mundo real é feito de nuances, e o grande espaço de discussão entre extremos é, na verdade, o verdadeiro espaço da discussão. Os extremos são, apenas, os extremos.
O problema surge com as falsas dicotomias, que inviabilizam múltiplas alternativas não por elas serem, de fato, inviáveis, mas porque a falsa dicotomia delimita artificialmente o universo de respostas possíveis. Corpo x Mente. Importante x Desprezível. Inteligente x Burro. Quem não está familiarizado com artigos AI written que começam com “Não é sobre X, é sobre Y.”? É nessa esteira que as possibilidades de debates estruturados, relevantes e aprofundados são drasticamente reduzidas. O discurso humano condicionado pelos algoritmos de redes sociais em grande medida já causou este efeito na última década e meia – o da discussão entre extremos, com uma gritaria ensurdecedora que abafa as vozes que entendem que as dicotomias não abarcam toda a realidade. Mas agora, inevitavelmente e em pouco tempo, a maior parte dos textos que irão nos impactar serão gerados por IA (falamos sobre isso em um Insights de Sexta sobre IA nas Eleições, aqui na Action Labs). Nosso desafio, enquanto criativos, comunicadores e produtores de conhecimento, é garantir que esta estrutura linguística viciada, apesar de ser maioria, não seja a voz dominante.

Polarização e dicotomias
Quando o pensamento se divide em apenas dois lados, o espaço da discussão real desaparece

A voz humana como linha de defesa da criatividade

A tentação é tratar isso como curiosidade linguística — mais uma “palavra da moda” entrando no léxico coletivo, como aconteceu com jargões de internet ou de negócios em outras épocas. No entanto há uma diferença estrutural importante: dessa vez, a fonte não é um grupo social, um evento cultural ou uma comunidade — é um único modelo, treinado numa distribuição estatística específica de linguagem, conversando simultaneamente com centenas de milhões de pessoas. Não é difícil concluir o risco que corremos quando todos estão expostos a um único interlocutor onipresente (a IA), redigindo por nós e aproveitando nossas interações para universalizar seu estilo de escrita – e, por consequência, universalizar nossa forma de conceber as ideias. O impacto disso é absolutamente devastador.

Para um Innovation Studio, como a Action Labs, esse comportamento é um alerta direto sobre o próprio processo de trabalho. A criatividade estruturada depende de pensamento divergente: gerar o máximo de soluções possíveis antes de convergir, questionar até a ideia favorita, resistir à primeira resposta “óbvia”. Nosso processo de PoC Design (assim como todas as metodologias consagradas na área) defende, já há mais de 10 anos, cuidado extremo no processo de imersão e aproximação de um problema. É essencial conhecer profundamente as personas e todo o universo de trabalho antes de começar a imaginar soluções, sob pena de apaixonar-se por uma primeira versão de um produto antes da hora. Parte desta metodologia é a Investigação Apreciativa, um processo que parte de reflexão sobre cenários ideais antes mesmo de qualquer benchmark no mundo real – para evitar ser empacotado no espectro de soluções que já foram experimentadas pelos concorrentes (e por nós mesmos). Se este olhar para a concorrência antes da hora já implica uma redução drástica do nosso campo de visão, imagine o que acontece quando executivos de uma empresa começam sua aproximação a qualquer novo problema pela opinião da mesma IA que o resto do mundo? É absolutamente fundamental, em metodologias de inovação, saber o momento certo de aproximar-se das análises da IA. E isso não é nas fases iniciais de imersão. Pelo contrário, recorrer a ela nesta fase é fatal para qualquer pensamento divergente e é nossa tarefa, como criativos, liderar a resistência a isso. Citando Naoki Tanaka, Chief Creative Officer Global da Dentsu Lab:

Naoki Tanaka, Executive Creative Director, zero, Dentsu Inc. e Dentsu Lab Tokyo
Naoki Tanaka, Chief Creative Officer da Dentsu Lab (foto: Dentsu Group)

A essência da IA é fazer a média de toda a vasta história de ideias e produtos da humanidade. Ao fazer isso, ela reinicia a corrida da criação. Imagine todo mundo de volta na linha de partida. Uma nova disputa começa: quem é capaz de libertar-se? Quem consegue destacar-se? Essa reinicialização forçada pode levar a uma era de inovação sem precedentes — mas vai exigir novas sensibilidades e uma teimosia obsessiva pelo verdadeiramente novo.

Apêndice para os céticos quanto ao impacto da linguagem no pensamento

Se você ainda não está convencido da profundidade da mudança que a homogeneização da linguagem pode causar na nossa forma de pensar, consulte estas pesquisas na área:

Vocabulário definindo a personalidade dos objetos

Pesquisas mostram que o gênero gramatical influencia as associações feitas com objetos. Falantes de idiomas diferentes tendem a descrevê-los com características distintas, mesmo quando observam a mesma coisa.
Fonte: https://www.edge.org/3rd_culture/boroditsky09/boroditsky09_index.htmlhttps://escholarship.org/uc/item/3j37f380

Palavras influenciando o que os olhos veem

Idiomas categorizam as cores de maneiras diferentes. Essas diferenças alteram a velocidade e a precisão com que as pessoas identificam e lembram determinados tons.
Fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/lang.12195

Senso de direção aperfeiçoado pela gramática

Algumas línuas usam apenas pontos cardeais, em vez de “esquerda” e “direita”. Seus falantes desenvolvem uma orientação espacial muito mais precisa porque treinam essa habilidade o tempo todo.
Fonte: https://www.edge.org/3rd_culture/boroditsky09/boroditsky09_index.html

Linguagem dando direção ao tempo

A forma como um idioma descreve o tempo influencia sua representação mental. Falantes de inglês tendem a organizá-lo horizontalmente; falantes de mandarim respondem mais naturalmente a representações verticais.
Fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/lang.12195

Conjugação registrando culpados e inocentes

Idiomas que exigem identificar o responsável por uma ação fazem seus falantes lembrar melhor quem fez o quê. A gramática direciona a atenção e influencia o que fica registrado na memória.
Fonte: https://www.edge.org/3rd_culture/boroditsky09/boroditsky09_index.htmlhttps://www.annualreviews.org/doi/10.1146/annurev.anthro.26.1.291

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