Quando o ritmo encontra a altitude: O que o “Morro Maldito” ensinou a labber Natália Bortolás sobre inovação

Dizem que o asfalto é um laboratório de testes em tempo real. Cada quilômetro rodado exige recalcular rotas, monitorar dados de performance e, acima de tudo, gerenciar a energia para o que vem pela frente. Mas há momentos em que esse laboratório apresenta desafios que parecem maiores do que a própria capacidade de entrega. Essa é a história da nossa labber Natália Bortolás e do desafio que transformou sua perspectiva dentro e fora das pistas: enfrentar o trecho mais temido da icônica prova Volta à Ilha, em Santa Catarina.

A dinâmica da competição é intensa: são 140 km de revezamento contornando as belezas e as armadilhas de Florianópolis, divididos em 19 trechos com diferentes níveis de dificuldade. No topo dessa pirâmide de complexidade está um percurso de 16 km com uma subida íngreme que atravessa um morro com 250 metros de altitude. O apelido dado pela comunidade faz jus à fama: o Morro Maldito.

Durante duas décadas, a equipe da qual Natália fazia parte mantinha uma tradição velada: aquele trecho era território exclusivo dos corredores homens com os melhores tempos. Até que, em um treino despretensioso, surgiu a pergunta que mudaria completamente sua perspectiva: “Por que nenhuma mulher do nosso time nunca correu esse trecho?”. A resposta da treinadora não veio em forma de teoria, mas de ação imediata: “Boa pergunta. Você vai correr ele daqui a seis meses.”

A reação inicial foi equivalente a uma tela azul de erro mental. Natália não se considerava uma atleta de elite e acreditava que a preparação necessária para enfrentar algo daquela magnitude levaria anos. Mas tanto no ecossistema da inovação quanto no esporte, esperar pelo “momento perfeito” ou por um cenário com 100% de certezas costuma ser a receita da estagnação. O desafio foi aceito, e os meses seguintes se transformaram em um exercício diário de iteração contínua.

Foi necessário olhar para o tempo disponível, mapear os gargalos da rotina e estruturar um plano de treino modular. Não era possível mudar a genética, mas era possível otimizar a resiliência. Ela aprendeu a treinar com os recursos que tinha, celebrando pequenos avanços diários de força, resistência e fôlego.

No dia da prova, os primeiros oito quilômetros foram um verdadeiro teste de paciência e controle emocional. Diante de subidas que pareciam paredes, o segredo não estava na velocidade máxima, mas na constância — aquilo que, no universo do desenvolvimento, pode ser chamado de ritmo sustentável. Afinal, quem gasta toda a energia no início de um projeto dificilmente consegue entregar o produto final. Foi necessário aplicar um verdadeiro MVP — “Minimum Viable Pace”, ou Ritmo Mínimo Viável — para garantir energia suficiente até o fim da subida.

Quando finalmente alcançou o topo do Morro Maldito, veio a surpresa: de maldito, ele não tinha nada. O cenário revelava um sol espetacular, uma vista panorâmica para o mar e uma sensação de recompensa que nenhuma pista plana seria capaz de proporcionar. A descida íngreme que veio em seguida exigiu técnica e foco, mas o teto de vidro já havia sido quebrado. Ao cruzar a linha de chegada, Natália não apenas completava o próprio trecho, mas também reescrevia uma tradição de 20 anos daquela equipe.

Hoje, no dia a dia da Action Labs, esse mesmo “Morro Maldito” aparece em formatos diferentes: escopos complexos, prazos desafiadores e tecnologias que se transformam semanalmente. E as lições aprendidas naquela subida seguem totalmente conectadas ao DNA Labber.

A inovação exige coragem para questionar o status quo. Quando algo é feito da mesma forma há 20 anos, talvez esse seja justamente o maior sinal de que chegou a hora de mudar. Da mesma forma, lideranças e colegas têm um papel fundamental ao enxergar potencial em alguém antes mesmo de essa pessoa acreditar totalmente em si.

O mercado não precisa de soluções perfeitas construídas no vácuo. Precisa de resiliência acima da performance pura: entregas consistentes, inteligência para operar com os recursos disponíveis e capacidade de adaptação em terrenos difíceis. No fim das contas, seja programando, desenhando experiências ou subindo morros, a verdadeira arte está em acreditar que é possível — e ter a disciplina de seguir um passo de cada vez até alcançar a vista lá de cima.

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